O sentido da audição é um dos principais que o ser humano possui, ajuda a nos comunicarmos e nos localizarmos. Mas não é do simples ato de ouvir algum som que venho falar, mas da capacidade de assimilar as informações que são repassadas a nós a todo o momento por meio do som. Algo que já presenciei inúmeras vezes é uma pessoa falando de algo para outra pessoa e esta outra pessoa ouvir o que lhe é dito, mas não entender (assimilar) nada do que foi dito.

 

Lembra daquilo que te falei ontem?

Não, o que você disse? Ou ainda Não, não você não me falou nada disso!

 

Esse fato curioso e constante nas nossas vidas eu comecei a entender quando criança, quando eu falava algo que acreditava ser interessante e os adultos simplesmente não absorviam o que era dito. Sim, eles estavam ali na minha frente ouvindo, mas é como se entrasse por um ouvido e saísse pelo outro. Isso quando não saíam enquanto eu falava. Não foi preciso que alguém me falasse que crianças não se envolvem em “assuntos de adultos”, eu havia entendido aquilo após algumas repetidas ações de descaso por parte dos adultos.

Somente na minha vida adulta que eu voltei a refletir sobre este fato de ouvir ao outro, fato que até me assustou quando me dei conta, pois passei todos esses anos para voltar a prestar atenção em algo que acontecia continuamente ao meu redor. Algo que as pessoas fazem constantemente umas com as outras. Um ouvir sem escutar nada do que é dito, uma ação automática, de respeito (?), algo que se faz para “manter a harmonia” e seguir em frente nas relações. É como o “bom dia” e o “tudo bem” que falamos para conhecidos quando passamos por eles pela rua, tudo automático – seguimos nosso caminho, fizemos o que manda o manual.

Por mais que o texto esteja rumando para a questão das normas de boa convivência, não é nem esta situação que destaco, mas o que falei anteriormente no texto: assimilar aquilo que se está captando. O nosso ritmo de vida e a preocupação com nós mesmos e aquilo que queremos deixa pouco espaço para perceber a vida ao nosso redor, mas acredito que, quanto mais nos deixarmos envolver pelas pequenas coisas ao nosso redor, mais nos descobrimos e nos sentimos bem conosco.

 

 

Ouvir uma boa música (sem fazer mais nada), simplesmente se deixar envolver por ela. Ouvir o cantar de passarinhos, os sons da natureza, certamente são agradáveis para a maior parte das pessoas e fazem bem. Mais que isso, ouvir o que a outra pessoa tem a dizer (ao menos as pessoas que mais nos importam, as que convivem conosco e as que dedicam tempo a nós) e, por mais que discordemos, deixar a pessoa saber que ouvimos aquilo que é importante para ela. É incrível como podemos partilhar sem efetivamente dar algo, mas recebendo algo do outro no ato de ouvir 😊

 

Ouvir e entender

Ouvir e sentir

Ouvir e saber

Quem poderá compreender,

Senão aquele que ouviu.

Rodrigo Poiesis
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