Admirável chip novo é o nome de uma das músicas do álbum de mesmo nome lançado no ano de 2003 pela cantora Pitty. A música escrita por Pitty foi criada numa fase em que costumava ficar bastante tempo sozinha em seu quarto refletindo.

A música tem inspiração da obra literária de Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo. A história do livro mostra uma sociedade inteiramente organizada segundo princípios científicos. Um mundo de pessoas programadas em laboratório, e adestradas para cumprir seu papel numa sociedade de castas biologicamente definidas já no nascimento.

Muitas ideias do romance distópico de Huxley se entrelaçam com a letra de Admirável Chip Novo. Porém, o mais marcante é o quanto as reflexões da música são atuais e refletem a forma como a sociedade funciona sem que a maioria das pessoas tenha consciência. Para entender melhor, vamos refletir um pouco a respeito da letra da música.

 

O QUE ADMIRÁVEL CHIP NOVO TEM PARA NOS DIZER

 

Pane no sistema

Alguém me desconfigurou

Aonde estão meus olhos de robô?

Eu não sabia, eu não tinha percebido

Eu sempre achei que era vivo

 

Uma pane no sistema é capaz de despertar de um sono profundo. Tal como num processo de autoconhecimento quando começamos a nos dar conta da realidade em que estamos inseridos, existem situações que podem forçar esse processo de se dar conta.

A primeira reação da pessoa que desperta seu sono (ilusão) é começar a perceber que tem vida própria. Atingir a consciência de que somos donos de nossos destinos e que viver com autenticidade faz toda diferença em nossas vidas pode ser difícil de alcançar.

É muito comum encontrarmos pessoas que vivem suas vidas procurando se encaixar nos mesmos moldes que os outros. Fazendo dos objetivos dos outros os seus objetivos. Acreditando que uma imagem de felicidade que outra pessoa transmite resultará em felicidade para ela também.

A partir do momento que a ficha cai vem a reflexão “Eu sempre achei que era vivo”. A pessoa se dá conta que não vivia a própria vida, mas uma vida decidida e dedicada ao que os outros acreditavam ser a forma correta de se viver.

 

Parafuso e fluido em lugar de articulação

Até achava que aqui batia um coração

Nada é orgânico, é tudo programado

E eu achando que tinha me libertado

 

A segunda parte da música ressalta a percepção da pessoa que está despertando e que se dá conta de que antes tinha pouca ou nenhuma autonomia sobre a própria vida. Uma vida que poderia ser comparada a de um robô, programado para executar determinadas ações e ter um comportamento esperado sem que pudesse ser influenciado pelos próprios pensamentos.

Na última frase da segunda estrofe: “E eu achando que tinha me libertado”, fica claro que a ideia de independência e liberdade que se tinha antes era uma ilusão.

 

Mas lá vêm eles novamente

Eu sei o que vão fazer

Reinstalar o sistema

 

Num sistema onde a grande maioria é ignorante da própria situação e vive com mecanismos programados para que ela acredite ser livre e que suas escolhas são realmente suas, os poucos que se dão conta colocam em risco o funcionamento do sistema.

Da mesma forma que um sistema operacional usa de artifícios para se proteger de vírus que possam corromper o seu funcionamento, o sistema em que vivemos busca readequar aqueles que se distanciam da forma de viver preestabelecida.

O que fazer com alguém que questiona ou até se opõe ao funcionamento do sistema? Reinstalar o sistema. É nessa parte que se destaca os esforços dos diversos braços do sistema em enquadrar as pessoas em formatos em que possam ser controladas ao mesmo tempo em que acreditam ser livres.

 

Pense, fale, compre, beba

Leia, vote, não se esqueça

Use, seja, ouça, diga

Tenha, more, gaste, viva

 

Não, senhor, sim, senhor

Não, senhor, sim, senhor

 

As incontáveis regras em seus diferentes formatos que fazem parte da nossa vida, as mídias, tecnologia, as formas de nos comunicarmos com as redes sociais, o que consumimos, as propagandas e tudo mais que dita padrões de comportamento e nos conduz a determinadas escolhas é “programado” para nos manter previsíveis e sob controle.

É um desafio perceber o quanto o ser humano pode ser manipulado e estar vivendo como um robô. A maior trunfo de quem nos conduz como marionetes é o de nos fazer acreditar que nossas decisões são nossas e que se deixar levar pela multidão irá nos fazer feliz de alguma forma.

A música nos conduz pelo importante momento de despertar das pessoas. Mas não basta conseguir se dar conta da situação em que está inserido. O ser humano tem um grande desafio pela frente. A grande mudança virá após o seu despertar, pois precisará aprender a viver conduzindo a si mesmo.

 

 

Você já tinha prestado atenção a letra dessa música? Conte para mim o que acha dela 😉

Rodrigo Poiesis
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