Penso, logo existo, assim dizia Descartes abordando a capacidade intelectual e de conhecimento do ser humano. Ao longo da vida cada um de nós, com seus pensamentos e reflexões, vai construindo sua própria visão de mundo. Conforme essa percepção vai se moldando vamos construindo nossa história. Nosso foco está nas coisas que mais valorizamos e todo resto corre em paralelo, podendo se aproximar mais ou menos da nossa vida rotineira. Tudo que é diferente disso dá margem para a incomunicabilidade de pensamentos diferentes.

A forma como você percebe a vida vai se moldando desde seus primeiros contatos com o mundo. Tudo que está fora desse eixo central no qual você visualiza a vida acontecendo tem pouca ou nenhuma importância. É natural que isso ocorra, afinal, você não está acompanhando os acontecimentos fora do seu campo de visão. Tudo que conhecemos é mais reconfortante, pois nos mantém na zona de conforto e não nos desafia a realizar mudanças. Pessoas, comportamentos, acontecimentos e tudo que nos remete ao que estamos acostumados é mais fácil de entender e aceitar.

 

SEMELHANTES SE ATRAEM

 

É bem mais fácil e comum nos aproximarmos de pessoas que pensam de forma semelhante à nossa, o que reforça nossas crenças e nos conforta, queremos mais dessa sensação e menos de qualquer outra que vá contra aquilo que acreditamos ou conhecemos. Quanto mais seus pensamentos forem alimentados pelo senso comum, mais fácil será se aproximar de pessoas normais. Isso desperta um sentimento de pertencimento e acolhimento por todos ao seu redor. Não é à toa que tantas pessoas lutam para serem normais, aceitas pelos padrões da maioria (leia também o texto Normose).

Esse movimento em busca dessa sensação de bem-estar e pertencimento nos direciona a um esforço para estar em grupos. Como nossos ancestrais que se sentiam mais seguros andando em grupos. Isso pode significar abafar suas próprias ideias e questionamentos sobre a vida. Pois, se não encontrar grupos alinhados com suas ideias e forma de ver o mundo, você pode sentir um grande vazio, uma falta de sentimento de pertencimento. Uma pessoa assim se sente perdida e sem referências, sem aceitação, excluída.

 

A DISTÂNCIA E A INCOMUNICABILIDADE

 

As limitações de crenças e pensamentos que vamos nos impondo para nos encaixar entre as demais pessoas muitas vezes nos levam a um verdadeiro isolamento social de outros grupos ou pessoas. Justamente aquilo que buscamos fugir inicialmente. Neste caso, nos isolamos por nos limitarmos e não conseguirmos mais interagir com pessoas diferentes. O grau varia, quanto mais nos isolamos em nossos grupos, mais difícil é interagir com alguém que tenha ideias que sejam um pouco diferentes das nossas, quem dirá daqueles com ideias bem diferentes.

Temos o instinto de proteger nosso modo de vida e aqueles que se afinam conosco e, quanto mais inseguros quanto a perder o nosso espaço e aceitação entre aqueles que estão ao nosso redor, menos enxergamos o espaço e ideias dos outros. Com o tempo vamos nos tornando radicais e ferrenhos defensores dos nossos próprios pontos de vista, travando verdadeiras batalhas para comprovar que estamos certos. Afinal, se suas ideias são expostas como erradas, isso poderia desestabilizar o seu grupo e aquilo que os une, consequentemente, abriria espaço para se sentir vazio e sozinho.

Quanto mais nos isolamos em nossas próprias ideias, mais incomunicáveis nos tornamos e mais distante das outras pessoas. Os impulsos para proteger nossas crenças são grandes. Também são grandes as barreiras que vão sendo criadas, nutrindo diferenças e distanciamento entre as pessoas. Mesmo aqueles que convivem e se falam diariamente podem não se compreender. Pessoas que compartilham espaços, atividades e certos conhecimentos, mas que não sabem nada do outro. Que não compreendem as diferentes escolhas feitas por um e outro e, possivelmente, costumam se desentender.

 

PENSAR DIFERENTE ABRE PORTAS

 

Se muitas pessoas vivem sem tentar entender o outro ou se colocar em situações diferentes daquelas que lhe são habituais, outras descobrem os benefícios de não se fechar para o diferente (leia também O preconceito e a discriminação presentes no dia a dia). São indivíduos que buscam se aceitar como são e se integrar ao mundo dessa forma. Que encontram nas diferenças crescimento e se esforçam para construir pontes entre as diversas formas de ser e pensar. A incomunicabilidade de pensamentos diferentes se torna um desafio a ser superado e não uma ameaça a ser evitada.

É comum ter medo de pensar diferente e descobrir novas ideias, novos caminhos. Justamente porque isso pode nos distanciar de algumas pessoas. Aqueles que enfrentam sua constante mutação ao longo da vida entendem que a vida é um constante ir e vir e que nossas ideias e pensamentos não estão aí para nos limitar e fechar em pequenos grupos para que nos sintamos seguros. Pelo contrário, as ideias devem nos libertar e nos dar asas para interagir com diferentes pessoas e realidades. Nos dá oportunidade para que comecemos a entender e sentir o conceito de que todos somos um.

 

SEM ENTENDER

 

Gostei de você logo que te vi.

Tentei me apresentar e falar de mim,

Mas você não ouviu, ou melhor,

Parece não ter entendido o que eu disse.

 

Insisti, mas de nada serviu.

Você me viu como oponente,

Se sentiu desafiada e me afrontou.

A discussão parecia não ter fim.

 

Era tarde quando me dei conta,

O estrago estava feito

E os ânimos feridos.

 

Toda vez que tento falar com você

A situação parece piorar.

São palavras que se perdem no ar,

São insultos que não querem calar.

 

Como é possível que não nos entendamos?

Tudo que quero é me aproximar,

Mas quando coloco em palavras

Tudo começa a desandar.

 

Infográfico - A Incomunicabilidade de Pensamentos Diferentes

 

Rodrigo Poiesis