A FICHA CAIU

Quanto tempo se passou até que ele percebesse tudo o que já tinha passado? Era só somar os anos desde que nasceu, afinal, até aquele momento a ficha ainda não tinha caído. Como um bom rapaz de família ele sempre procurou obedecer seus pais e seguir os conselhos e anseios que tinham em relação a seu futuro. Claro que ele não era perfeito e acabou fazendo algumas (talvez muitas) besteiras ao longo de sua jovem vida adulta.

Apesar de ser um bom rapaz e procurar fazer a coisa certa, nem sempre ele se sentia bem com as escolhas que fazia, mas como não via outras opções viáveis, simplesmente aceitava o que tinha em sua frente. Ele foi bem na escola, sem maiores problemas, até o momento que não estava mais indo tão bem. Tropeçou lá no ensino médio e sofreu para termina-lo e decidiu por não cursar a faculdade. Não via nada que o fizesse acreditar que aquilo era um chamado para ele, algo que fosse valer a pena. Essa foi uma das suas primeiras grandes decisões em relação a sua vida.

Como bom filho e cidadão que era, como não prosseguiu os estudos teve que procurar trabalho. Os anos que passou trabalhando entre uma e outra empresa nunca lhe davam nenhum sentido maior de sua vida. Ele tinha suas ambições, de encontrar alguém, ter bens materiais que melhorassem sua vida, fazer algo que combinasse com ele e desse sentido a sua vida. Até ali ele não havia encontrado nada disso e começava a se perguntar se em algum momento isso realmente iria acontecer. Via seus amigos com casa própria, namoradas, muitos até casados e com filhos.

Não demorou até que essa falta de senso de conquista e realização abrisse espaço para um buraco, um vazio que foi tomando conta do espaço que deveria ser preenchido com coisas boas e construtivas que toda e qualquer pessoa pode ter na vida. A depressão vem de mansinho, nem sempre com motivo claro, mas é sempre aterrorizante e te carrega para um espaço de solidão e desespero silencioso. Por sorte ele teve ajuda no processo e não deixou que essa depressão se aprofundasse. Mesmo assim, passou bastante tempo até que se recompusesse e desse novo sentido a sua vida.

Novamente ele estava caminhando o mesmo caminho que fazia há mais de ano indo para o seu emprego mais recente. Mas algo havia mudado, nada no trajeto, nada que ele estivesse fazendo necessariamente, mas algo dentro dele tinha se alterado de forma que ele já não se sentia mal pelas escolhas que tinha feito. Estava pensando, mais uma vez, na sua trajetória até ali e se comparando com seus amigos e conhecidos. Mas desta vez não se sentia mal ou arrependido, estranhamente se sentia orgulhoso de si mesmo e com vontade de abraçar o mundo, como em aceitação e gratidão pela vida que tinha.

Não, não se tratava de nenhuma revelação do tipo que se tem em experiências de quase morte, na verdade estava mais para a ficha caiu. Ao que parece, após algumas chacoalhadas, certas situações ganharam novas perspectivas. Ele percebeu que em sua vida ele havia escolhido não seguir estudando numa faculdade, que dividia a casa com um amigo, que escolheu acolher e cuidar de um cachorro que encontrou perto de sua casa num dia de frio. Os objetos, eletrodomésticos, até sua bicicleta, foram coisas que ele foi adquirindo no decorrer do tempo e, mesmo sendo coisas simples e até banais, eram as suas coisas, suas decisões, sua história.

Ele pode nunca ter tido o emprego dos sonhos, longe disso, mas aprendeu muito nas experiências que teve e até fez alguns bons amigos. Também não tinha uma namorada, nunca conseguiu manter um relacionamento longo, mas foi porque não encontrou ninguém que combinasse com ele. Nesse tempo acabou descobrindo coisas interessantes para se fazer sozinho e como aproveitar o tempo consigo mesmo, valorizando a própria companhia. Percebeu que o vazio que sentia até então era formado pelas coisas que ele nunca teve e nunca se sentia bem porque não vivia a vida que tinha, mas uma vida que sonhava ter.

Naquele momento nem sabia mais porque almejava ter a vida nos mesmos formatos que os outros. Trilhar os mesmos passos e ter as mesmas coisas que todos os outros não o levaria por nenhum lugar novo. Mesmo as coisas que almejava ter e não tinha, ainda poderiam ser alcançadas, mas nem por isso as coisas que conquistou até ali não teriam valor. Tudo fazia parte de sua história, de quem ele era e do que ainda seria. E se fizesse apenas o que desejava e aquilo que o fizesse feliz, qual seria seu próximo passo? Não importa o passado, presente ou futuro, a resposta para aquilo que ansiava estava nele mesmo, não nos outros. Somente se encontrou quando olhou para si mesmo e passou a dar valor para quem era e tudo que conquistou.


Grandes ou pequenas coisas, histórias curtas ou compridas, todos nós temos as nossas. Se você acha que até hoje não conquistou ou possui algo de valor é porque não prestou bem atenção. Ouça seu coração e escute o que ele tem a dizer, o que realmente ele almeja?

Seja você mesmo, abrace o mundo e seja feliz 😊


 

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